Argentina, Chile e México: a exploração em campo do patrimônio da saúde na Iberoamérica

A pesquisa  “Patrimônio da Saúde na Iberoamérica: conectando ambiências” faz parte da Chamada Pública MCTI/CNPq nº 162024 – Apoio a Projetos Internacionais de Pesquisa Científica, Tecnologia e de Inovação, estudando arquiteturas da saúde em diferentes locais, gerando a interação e intercâmbio de conhecimento entre instituições de diferentes países de forma a contribuir para o reconhecimento e divulgação dessas arquiteturas, além de permitir o estudo das arquiteturas a partir da análise comparativa entre os conjuntos edificados enquadrados na pesquisa. Um dos principais aspectos em vista é gerar conhecimento acerca da humanização em espaços de saúde, investigando a conexão entre usuários do espaço e o ambiente. Para tal, a prática etnográfica é adotada como método para a apreensão das percepções dos usuários do espaço, o que demanda a profunda imersão dos pesquisadores participantes em campo, possibilitado através do intercâmbio de pesquisadores do Lamemo em 3 países da América-Latina, após alguns meses desde o início da pesquisa, cada pesquisador trouxe relatos de sua experiência em campo. 

A arquiteta e pesquisadora MSc. Júlia Helena Santa Maria Moraes, doutoranda do PPGAU Universidade Federal do Pará (UFPA), desenvolve um estudo que investiga o papel dos espaços verdes em hospitais públicos da Amazônia brasileira e de Buenos Aires, na Argentina. A pesquisa é orientada pela Profª. Dra. Cybelle Salvador Miranda (UFPA) e coorientada pela Profª. Dra. Gabriela Campari (UBA), configurando uma colaboração internacional voltada à humanização dos ambientes de saúde.




Figura 1 e 2: Registros da pesquisadora em campo. Foto: Júlia Moraes, 2026.


Durante a etapa internacional, o trabalho está vinculado ao Hospital de Infecciosas F. J. Muñiz, em Buenos Aires, com inserção institucional e participação em atividades em parceria com o Comitê de Relações Institucionais, fortalecendo o intercâmbio acadêmico e científico.

O estudo parte do entendimento de que a presença da natureza nos hospitais vai além da estética, contribuindo para o bem-estar emocional, a redução do estresse e a recuperação dos pacientes. Para isso, analisa dois casos principais: o Hospital Universitário João de Barros Barreto, em Belém, e o Hospital Muñiz, em Buenos Aires.

Com base no conceito de biofilia, a investigação busca compreender como jardins, pátios e áreas abertas impactam a experiência de pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde, além de analisar os chamados “dispositivos de olhar”, como janelas, varandas e corredores.

A metodologia adota abordagem etnográfica, com observação direta, registros fotográficos, vídeos e produção de diários de campo, acompanhando o cotidiano hospitalar. A pesquisa integra um projeto internacional sobre patrimônio da saúde na Ibero-América e pretende contribuir para o desenvolvimento de diretrizes voltadas à humanização e à valorização dos espaços verdes nos ambientes hospitalares.




Figura 3 e 4: Registros da pesquisa na Argentina. Foto: Júlia Moraes.

No Chile, Livia Gaby Costa, Doutora em História e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP e Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela UFPA, compartilhou parte de sua experiência a partir da pesquisa que vem desenvolvendo sua pesquisa, em parceria com a Universidade do Chile:

“O processo de pesquisa teve início no começo do mês de março, com a chegada a Santiago do Chile para o desenvolvimento do estágio pós-doutoral. Como toda mudança de país, os primeiros dias foram marcados por um certo estranhamento. O deslocamento trouxe desafios, inseguranças e a necessidade de adaptação a uma nova língua e a um novo cotidiano.”

“Com o passar das semanas, esse cenário inicial foi dando lugar a um processo de aproximação mais sensível com o contexto local. As primeiras atividades envolveram leituras e levantamentos documentais, especialmente na Biblioteca Nacional, na tentativa de compreender a história da saúde no Chile e suas particularidades.”

“Um aspecto que chama atenção nesse contexto é a existência de uma política estruturada de patrimônio cultural da saúde, vinculada ao Ministério da Saúde (MINSAL), que organiza e valoriza a memória das instituições assistenciais no país. Esse arranjo institucional evidencia uma diferença importante em relação ao Brasil, tanto na forma de reconhecimento quanto na gestão desse patrimônio.”

“A aproximação com o campo empírico se deu por meio do Hospital del Salvador, instituição central da pesquisa, que mantém vínculos com a Universidade do Chile. Esse hospital se trata de um monumento no país, cuja construção remonta ao final do século XIX e início do século XX, consolidando-se como uma das principais instituições de saúde de Santiago. Sua arquitetura apresenta um perfil neoclássico, perceptível sobretudo nas fachadas simétricas, nas colunatas e na organização formal dos espaços, refletindo os ideais de ordem, racionalidade e higiene que orientavam a arquitetura hospitalar do período.”


Figura 5: Fachada da Instituição. Foto: Livia Costa, 2026.

“Sua implantação está diretamente relacionada ao desenvolvimento das políticas higienistas, que buscavam reorganizar os espaços urbanos e assistenciais por meio de soluções como a separação por pavilhões, a ventilação cruzada e a presença de pátios internos.”


Figura 6: Pátio das Freiras. Foto: Livia Costa, 2026.


“Ao longo do tempo, esses pátios intrahospitalares passaram por transformações significativas, que refletem mudanças mais amplas nas concepções médicas e nos modos de organizar o espaço hospitalar. Inicialmente concebidos como dispositivos terapêuticos, associados à ventilação natural, à circulação do ar e à relação direta com o ambiente externo, esses espaços estavam alinhados às teorias higienistas do final do século XIX.”

“Com a transição para modelos médicos centrados no controle do contágio por contato, ao longo do século XX, o papel do ar e da abertura espacial foi progressivamente redefinido. Como consequência, muitos desses pátios foram sendo fechados, fragmentados ou ressignificados, passando a responder a uma lógica mais voltada ao controle ambiental e à assepsia.”

“Essa transformação não apenas alterou a configuração física dos espaços, mas também redefiniu a experiência hospitalar, especialmente no que se refere às relações entre interior e exterior. Os pátios, antes espaços de permanência e circulação livre, passaram a ser mediadores da visão, muitas vezes acessíveis apenas por meio de janelas, corredores e outros “dispositivos de mirada”, que reorganizam a forma como o espaço é percebido e vivido no cotidiano do hospital.”

“Além de sua relevância histórica e arquitetônica, o hospital se destaca pela configuração espacial estruturada em torno desses pátios e galerias, que ainda hoje apresentam usos e importâncias distintas na dinâmica espacial. Essa configuração, embora tenha sofrido transformações ao longo do tempo, inclusive decorrentes de terremotos de grande magnitude, como o de 2010, permanece como elemento central para a compreensão das dinâmicas contemporâneas do hospital, especialmente no que se refere às relações entre espaço, uso e experiência.”


Figura 7: Piso de um dos antigos pavilhões após o terremoto. Foto: Livia Costa, 2026.

“Ademais, atualmente há um processo de finalização de uma nova edificação, para a qual parte das funções hospitalares será transferida. Essa intervenção contemporânea é particularmente significativa, pois evidencia a complexidade inerente ao patrimônio da saúde. A necessidade constante de atualização tecnológica, própria das práticas assistenciais, tensiona diretamente a preservação das edificações históricas, colocando em debate os limites e as possibilidades de manutenção desses espaços. No Hospital del Salvador, essa condição se torna visível na coexistência entre estruturas históricas e novas edificações, revelando um processo contínuo de adaptação.”

“Essa leitura também dialoga diretamente com o objetivo da pesquisa, que propõe uma análise comparativa com o Hospital de Caridade da Santa Casa de Misericórdia de Belém. Assim como no contexto chileno, a Santa Casa enfrenta desafios relacionados à preservação, especialmente no que se refere aos processos de reconhecimento e tombamento, evidenciando que as tensões entre conservação, uso e modernização constituem uma problemática compartilhada no campo do patrimônio da saúde na América Latina.”

“A pesquisa tem se desenvolvido de forma substancial, em grande parte graças ao vínculo institucional, que facilita o acesso de pesquisadores ao hospital e permite a realização de observações de forma contínua. Inclusive, há a utilização de um crachá de identificação, o que facilita significativamente a atuação como pesquisadora dentro da instituição, uma vez que existe uma compreensão acerca do trabalho desenvolvido e uma permissão de acesso a ambientes previamente autorizados.”

“Esse processo de credenciamento foi aprovado de forma relativamente rápida, o que se mostrou fundamental para um maior aprofundamento da pesquisa. O acesso também se estende a acervos documentais importantes, como o Museu de Medicina, além de possibilitar a interlocução com setores institucionais, como a área de patrimônio do Ministério da Saúde (MINSAL).”


Figura 8: Crachá usado na pesquisa de campo. Foto: Livia Costa, 2026.


“A pesquisa adota uma abordagem etnográfica, com foco nas áreas verdes intrahospitalares e nos chamados “dispositivos de mirada”, buscando compreender como esses espaços são utilizados e percebidos por pacientes, acompanhantes, profissionais e gestores. O trabalho envolve caminhadas pelos pátios, observação das rotinas, registros fotográficos e a elaboração de diários de campo, nos quais são anotadas impressões, situações e relações que emergem no cotidiano hospitalar.”

“Ao longo desse percurso, tem sido possível perceber que, embora o hospital possua reconhecimento patrimonial, muitas informações históricas não estão disponíveis diretamente em seu interior. Isso faz com que a pesquisa se expanda para outros espaços, como bibliotecas e museus, ampliando o campo de investigação e revelando as múltiplas camadas que constituem o patrimônio da saúde.”

“Além do trabalho de campo, a experiência tem proporcionado importantes trocas acadêmicas, incluindo a participação em atividades de ensino e o diálogo com pesquisadores locais, fortalecendo redes e abrindo novas possibilidades de investigação. A estadia em Santiago segue até o final de agosto, período em que se pretende consolidar as análises e avançar na comparação com a Santa Casa de Misericórdia de Belém, ampliando o debate sobre arquitetura assistencial, percepção ambiental e patrimônio da saúde na América Latina.”

Figura 9: No centro, a pesquisadora Livia Costa ladeada por duas pesquisadoras da Universidade do Chile. Foto: Livia Costa, 2026.


Felipe Moreira Azevedo, professor Doutor em Arquitetura e Urbanismo pelo PPGAU UFPA, que vem realizando sua pesquisa na Universidad Nacional Autónoma de México compartilhou parte das experiências de seu intercâmbio em um verdadeiro diário de viagem, intitulado “Cônica do México - Um Mês de Pesquisa Pós-Doutoral”.

“Cheguei em Cidade do México, capital do país, no dia 02 de abril de 2026, pela parte da tarde. Após mais de seis horas na imigração recebi minha autorização para adentrar o país e finalmente poder me deslocar até o alojamento que estou em estadia. Já no dia seguinte entrei em contato com a tutora (supervisora) que aqui no México irá me avaliar e auxiliar na pesquisa de pós-doutoramento.”

“Assim no dia 09 de abril eu me desloquei até a Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), aportando a frente do prédio da reitoria (figura 10), com sua arquitetura moderna e no ponto alto o brasão da instituição.” 

“Como um bom pesquisador, estrangeiro e arquiteto e urbanista, esses lugares são verdadeiros pontos turísticos, logo, comecei a realizar registros fotográficos de algumas arquiteturas como do imponente, e icônico, prédio da biblioteca central (figura 11) com sua arte muralista impactante – importante atentar que esta universidade é sempre constante de turistas e visitas guiadas para não só conhecer suas arquiteturas, museus e complexos escultóricos, mas também os murais projetados por artistas de renome do país.”

 

Figuras 10 e 11: Prédio da reitoria e da biblioteca central da UNAM. Fotos: Felipe Azevedo, 2026.


“Chegando, já me deparei com o brasão da universidade no tapete de entrada (figura 12) – este elemento se repete em muitos outros lugares pela instituição assim como seu lema “Por mi raza hablará el espíritu”. Todavia, na secretaria me apresentei e pedi para falar com a professora que já me aguardava, e quando esta me viu exclamou “você é muito jovem!”, bom na hora eu agradeci, mas depois quando entrei em seu escritório ela me comentou que a exclamação se deve, pois não se vê pesquisadores nessa idade fazendo pós-doc. no México, pelo menos não nesta área (arquitetura e urbanismo) (figura 13).”


Figuras 12 e 13: Entrada do CIAUP e Reunião com a Coordenadora do CIAUP. Fotos: Felipe Moreira Azevedo, 2026.


“ A professora também me levou para conhecer parte das dependências da faculdade – são vários prédios conectados por passarelas descobertas e outras cobertas, até chegarmos no prédio central onde conheci a biblioteca, a livraria, o vestíbulo, o café e a parte das salas de aula e administrativo (figura 14).”


Figura 14: Reconhecimento da Faculdade de Arquitetura da UNAM. Fotos: Felipe Moreira Azevedo, 2026.

“Após este primeiro dia de reconhecimento e pesquisa, repeti este percurso durante dez dias deste primeiro mês aqui no México (figura 15), entrando em contato com minha supervisora/tutora no dia 15 de abril (figura 16) e alinhavando minha pesquisa e minhas obrigações como pesquisador de pós-doc. do CIAUP/UNAM. Até o momento a pesquisa documental tem avançado bastante e estou aguardando as devidas autorizações para iniciar minha pesquisa de campo. E para terminar este breve relato, como dizem por aqui, ‘avante nas pesquisas! Pumas!’.”       



Figuras 15 e 16: Fazendo pesquisas durante este mês de abril nas bibliotecas da UNAM e reunião com a

minha professora tutora/supervisora.
 Fotos: Felipe Moreira Azevedo, 2026





 

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