Ninguém escapa ao seu destino - Crônica do filme Golpe de Sorte em Paris (WOODY ALLEN, 2023)
GOLPE DE SORTE EM PARIS, de Woody Allen
Cybelle Salvador Miranda
Professora Titular FAU/PPGAU/UFPA
O quinquagésimo filme do diretor reitera sua predileção pelo tema do destino, e, como tal, pode ser analisado sob vários pontos de vista. Considerando o diretor como um leitor de Freud e que brinca com o acaso, optamos por esta abordagem para lê-lo nas entrelinhas.
A estrutura dos personagens é armada em triângulo, cujo vértice é ocupado pela personagem feminina, Fanny, casada com Jean e que inicia um relacionamento paralelo com o antigo colega de colégio, Alain. O diretor nos convida para um passeio, como aquele citado por Freud quando trata da livre associação: somos os passageiros que vemos passar as cenas da paisagem, cujos temas surgem em nosso campo de visão sem que tenham uma conexão aparente. Essa estratégia é revelada pela obsessão de Jean por uma estrutura criada com um trem de brinquedo, relíquia dos anos 50, quando confessa à sogra que fora uma criança rejeitada pelos colegas, e que o trem lhe confere um sentimento de estar livre.
Após o susto inicial, em que, sem mais delongas, o diretor apresenta o encontro casual dos ex-colegas de escola, percebe-se que há muitos fragmentos sutilmente dispostos na trama. Emoldurados por uma Paris tradicional, o acaso se dá na Avenue Montaigne, no coração dos Champs-Elysées. Ao fundo, assoma a base da Torre Eiffel, vemos o novo casal comprar um livro nas bancas da icônica livraria Shakespeare and Company, mas o cenário se concentra em interiores estucados e em gradis dourados.
Em diversos momentos, o roteiro aponta dualidades, como cidade x campo, civilização x barbárie, Europa x Estados Unidos, mas, o ponto de convergência está na dicotomia mundo inconsciente x mundo racional. O descrédito de Jean pelo destino, (ele diz acreditar que este se constrói com ações), volta-se contra ele no irônico final, típico do diretor. A suposta racionalidade conferida pelo poder econômico é contrariada pelo insondável, o imponderável da existência humana. A oscilação entre eros e tanatos (pulsão de vida e pulsão de morte) são personificadas por Alain e Jean, aquele movido pela paixão e este, pela tendência à autodestruição.
Durante um leilão, em que Fanny se inquieta com a falta de resposta de Alain, os objetos pertencem a Escola de Caravaggio, destacando-se a obra Judite com a cabeça de Holofernes, que ilustra o tema clássico da mulher judia que causa a derrota dos invasores ao seduzir o general inimigo. A mulher como pivô, como ameaça, o vértice do triângulo e causa da destruição dos dois amantes. O objeto de desejo, a esposa-troféu.
No interior da trama, a sogra, Aline, contrapõe seu apreço pelo lado obscuro dos romances policiais à suposta ingenuidade da filha, atraída por um perfil de homens pouco adequados, como no mito de Deméter e Perséfone. O instinto investigativo parece que a levaria à fatalidade, mas, por causa do destino, o feitiço vira contra o feiticeiro.
Nascer é um golpe de sorte, não controlamos o universo, parece uma lição muito simplória, não é? Mas, diante de tantas guerras, violência e dos infinitos dramas do cotidiano, é ainda muito distante de ser assimilada por nós.
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