terça-feira, 22 de maio de 2012

Belém: uma floresta de concreto - Um pouco da história de Belém contada através de sua arquitetura única


Confira a reportagem sobre Belém na revista independente Tudo&Etc por Phillipp Gripp (Editor da Revita e Acadêmico de Jornalismo na Universidade Federal do Pampa - UNIPAMPA), que contou com a consultoria da Profª Cybelle Miranda, baseada na entrevista transcrita abaixo:




ENTREVISTA REVISTA TUDO&ETC

1. Então, para começar, eu gostaria de saber como surgiu esse seu amor pela arquitetura de Belém.
CM - Durante minha formação, tive interesse pelas artes e pela arquitetura de Belém, com as quais convivi nos bairros da Cidade Velha, onde nasci, e de Nazaré, onde se situavam as escolas que freqüentei. Ao ingressar no Curso de Arquitetura, realizei estágio no IPHAN, quando pude participar de projeto de restauro para a Igreja de São João e algumas visitas técnicas a Igreja de Santo Alexandre e ao Palácio Velho, que pertence ao Colégio do Carmo. O meu mentor foi o arquiteto e professor de Arquitetura Roberto de La Rocque Soares, que foi o primeiro restaurador do Palácio dos Governadores, atual Museu Histórico do Estado do Pará.

2. Gostaria também de entender um pouco sobre a história geral da arquitetura belenense. Se há algum estereótipo nas construções históricas, o que elas tem em comum e o que chama atenção na arquitetura histórica de Belém que pode diferenciá-la dos demais estados brasileiros? Podemos, então, dizer que ela tem uma identidade histórico-cultural própria preservada até hoje?
CM – A Arquitetura de Belém tem uma matriz colonial portuguesa, mas que se diferencia pela presença do arquiteto Antonio Landi na segunda metade do século XVIII, o qual reveste a cidade com edificações classicistas de alto valor artístico, como a Igreja da Sé (parcialmente), Igreja de Santana, de São João e o Palácio dos Governadores, que citei acima. Adquire ares franceses no período da Belle Épocque, com destaque para a arquitetura eclética (ver Palacete Bolonha, Palácio Antonio Lemos, Mercado do Ver-o-peso, etc.) além das praças como a Batista Campos e a Praça da República. Nas décadas de 40 e 50 o modernismo é introduzido pelos engenheiros, como Camillo Porto de Oliveira, com uso de linhas orgânicas, até a fundação do Curso de Arquitetura em 1964, quando se formam os primeiros arquitetos locais, e mais tarde, nos anos 80, temos a produção da “arquitetura amazônica”, de caráter regionalista, com destaque para Milton Monte. Assim, a arquitetura de Belém é um amálgama de influências externas adaptadas as condições sócio-culturais locais.

3. Como se dão as reformas dos locais históricos de Belém para que eles possam ser ocupados atualmente, como é o caso dos prédios e casarões de que a reportagem trata? O que é necessário para reestruturá-los e deixá-los como há anos atrás? E o processo é difícil tanto burocrática quanto tecnicamente?
CM - Em minha tese de Doutorado “Cidade Velha e Feliz Lusitânia: cenários do patrimônio cultural em Belém”, trato das intervenções realizadas no sítio inicial da colonização, que abrange o Forte, o antigo Hospital Militar, a Igreja e Colégio de Santo Alexandre e a Catedral. Analiso o componente político latente nestas intervenções, e em que medida impede o acesso ao material histórico presente nesses locais, ao introduzir elementos contemporâneos e eliminar supostas barreiras a fruição da paisagem.

4. E ainda sobre essas reformas da pergunta anterior, isso vem de uma questão cultural de Belém? Digo, é um ponto da identidade da Belém atual reformar prédios antigos, mantendo-o como antes e os transformando em locais para um "entretenimento" das pessoas, como boates, restaurantes e afins?
CM - O processo de “reciclagem” de edificações históricas, adaptando-as a novos usos voltados ao entretenimento e ao turismo não é privilégio de Belém, faz parte de uma das visões contemporâneas do patrimônio, buscando sua “sustentabilidade” financeira em meio as políticas neoliberais. É a chamada Era da Cultura, onde tudo se torna patrimônio, não no sentido do uso pela população, mas como atrativo rentável.

5. E para finalizar, eu gostaria de saber o que você pode falar dos 4 locais específicos da matéria: o Pólo Joalheiro (é, digamos, um pouco incomum ver um antigo presídio se transformando em uma joalheria, não?), a casa das 11 janelas, a casa do governador e o café com arte. O que acha dos lugares (a sua opinião própria) e como eles contribuem ainda hoje para a história cultural da capital?
CM - As intervenções nos três primeiros prédios foram executadas pela Secretaria de Cultura do Estado: o Pólo Joalheiro fora construído para abrigar um convento, tornando-se mais tarde Presídio São José (daí a alcunha atual São José Liberto) e nos anos 2000 tornou-se mais um dos pólos turísticos, ao sediar o Pólo Joalheiro e a Casa do Artesão, onde pode-se ver os ourives trabalharem, faz-se desfiles de moda e feiras de artesanato, a fim de promover o design paraense.  Como intervenção em prédio histórico apresenta falhas, como a galeria coberta em policarbonato que esquenta terrivelmente, a ausência de espaços que contem a história do prédio, com exceção de uma pequena cela voltada para o pátio que mostra fotos de presos durante rebelião ocorrida no presídio.
A casa das 11 janelas foi Hospital Militar, depois Quartel do Exército, e hoje é Centro Cultural, voltado a arte contemporânea e abriga o Boteco das 11, um bar com cara de pub inglês, destinado a clientela de alto poder aquisitivo. E a Casa do Governador, chamado Parque da Residência, creio que foi uma das intervenções mais felizes, pois alia a idéia de reciclagem mas abre o espaço antes restrito ao público, ampliando as opções de lazer da população na escala do bairro, o prédio principal torna-se sede da Secretaria de Cultura, instala-se um quiosque para venda de plantas, o gazebo torna-se restaurante bastante procurado, insere-se um vagão de trem como sorveteria, e remonta-se o antigo gasômetro da Praça Amazonas, transformando-o em teatro.
O Café com Arte é o único exemplo de iniciativa privada, que alia boa conservação do prédio com o uso de boate. O TCC desenvolvido por Luciana Cavaleiro de Macedo, sob minha orientação, procurou manter o uso atual, valorizando aspectos da arquitetura original do prédio e de sua decoração. Vejo que, apesar das restrições aos métodos empregados nas intervenções, que deixam de lado a história das edificações, ressaltando mais o seu valor de contemporaneidade que o de antiguidade, são espaços que se integram a cidade, muito embora o fluxo de visitantes seja pequeno. Falta investimento em educação patrimonial, para que a revitalização de prédios históricos se integre e signifique algo vivo para a população. Belém, hoje com seu território cada vez mais ampliado, afasta os habitantes do centro antigo, que precisa de atrativos para sentir pertencentes a essa história da cidade. O estímulo a eventos artísticos com teatro, como o Auto do Círio, desenvolvido pela UFPA, espetáculos musicais no píer da Casa das 11 janelas, concertos na Igreja de Santo Alexandre, blocos carnavalescos (que também é tradição da Cidade Velha), desde que respeitando o patrimônio desses locais e principalmente seus moradores, são benéficos para garantir a preservação de tais espaços.

CYBELLE SALVADOR MIRANDA, Arquiteta e urbanista, Professora da Faculdade de Arquitetura e urbanismo e do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFPA. Coordeno o Laboratório de Memória e Patrimônio Cultural.
http://arquiteturaufpamemoria.blogspot.com

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Participação de pesquisadores do LAMEMO no 6º Colóquio do PPRLB Portugal no Brasil: Pontes para o Presente

O 6º Colóquio do PPRLB Portugal no Brasil: Pontes para o Presente, promovido pelo Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, ocorreu entre os dias 9 e 13 de abril de 2012. No dia 13 de abril, as comunicações foram realizadas no Liceu Literário Português, no bairro das Laranjeiras, contando com a participação do Professor Ronaldo Marques de Carvalho na mesa "Pontes sobre presenças portuguesas na Amazônia", com o tema "A construção da identidade lusoparaense:taipa como “lugar de memória”, e a professora Cybelle Salvador Miranda na sessão "Pontes sobre o patrimônio artístico e arquitetônico" apresentou a comunicação "O hospital D. Luiz I da Beneficência Portuguesa em Belém-PA e a transferência de modelos artísticos entre mares". Em breve os anais do Colóquio estarão disponíveis na página do Real Gabinete Português de Leitura.

Confira as imagens:









terça-feira, 3 de abril de 2012

Os Folares da Páscoa Portuguesa

Para celebrar a Páscoa, o blog do LAMEMO apresenta o artigo da pesquisadora luso-paraense Anete Costa Ferreira, que trata sobre a celebração pascal em Portugal.
Com os votos de Boa Páscoa aos nossos leitores!

Clique aqui para acessar a revista
(páginas 40 a 42)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Artigo publicado na Revista Amazônica

O artigo "Da Almedina à Feliz Lusitânia: personagens do patrimônio", da Profª Drª Cybelle Miranda, faz parte da publicação nº 2 da Amazônica, Revista de Antropologia da Universidade Federal do Pará.
Para conferir o texto completo, clique aqui ou na seção Artigos.

Boa leitura!

quinta-feira, 1 de março de 2012

Cidades para pessoas: 5 lições de Copenhague para cidades brasileiras

        No site "Cidades para Pessoas", a jornalista Natália Garcia compartilha boas ideias em planejamento urbano aplicadas em diversas cidades do mundo. Em Copenhague, cidade em que 89% dos habitantes se dizem satisfeitos em viver, a autora conversou com Jan Gehl (urbanista dinamarquês da Gehl Architects) e Jeff Risom, que mostra em 5 lições como o Brasil pode aprender com a capital dinamarquesa, destacando a preocupação com as pessoas que fazem a cidade.



Saiba mais sobre o projeto aqui: http://cidadesparapessoas.com.br/

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Resenha Cultural: Um Homem de Duas Vidas (Toto le Héros, 1991), de Jaco van Dormael

                Trata-se de um belo filme que mereceu o prêmio de melhor diretor estreante no Festival de Cannes de 1991. O diretor belga Jaco Van Dormael, desde as primeiras cenas revela-se um realizador seguro (consta que sua experiência anterior era de clips publicitários, o que certamente lhe forneceu a base para uma linguagem cinematográfica sintética e objetiva). A partir de roteiro original, Um homem de duas vidas (Toto le héros, no original) o diretor constrói uma obra usando narrativa alinear, densamente poética, sensível, mesclando sonho e realidade. A estória é narrada na primeira pessoa, e segue um estilo acronológico, isto é, os fatos narrados não obedecem a uma sequência lógica, mas sim a lógica do inconsciente, onde todas as peças enigmáticas de um quebra-cabeça se encaixam. Em síntese, a estória aparentemente simples é de um homem comum, como qualquer cidadão da classe média ocidental cristã, profundamente infeliz com a mediocridade cotidiana, só abalada por alguns episódios tragicômicos. O personagem insatisfeito com o quinhão que lhe coube na vida, sentindo-se amargurado e injustiçado desde a infância (quando a mãe o teria trocado por engano num incêndio do berçário por outro bebê, arquiteta um plano, com cumplicidade da irmã, de matar seu maior rival).
 
Cena do filme
                A partir daí, o filme segue a trajetória divergente das duas vidas paralelas, sob a ótica do personagem já idoso, internado num asilo, rememorando os episódios marcantes de sua vida, da infância a morte, sempre pautado pela idéia obsessiva de trocar de identidade e de vida com seu rival infantil. Apesar da origem comum, classe média, os dois personagens alcançam patamares sociais diferentes: o rival odiado torna-se comerciante próspero, bem sucedido no amor, embora no fundo profundamente infeliz como confessa num encontro posterior, arruinado, alcoolizado, que ele sempre sonhara, invejara a vida simples e feliz do outro colega. Moral da estória (se é que o filme tem uma mensagem machadiana): a Felicidade sempre está onde nós a pomos, mas nunca a pomos onde nós estamos...
                Quanto ao estilo narrativo, observamos desde as sequências iniciais, um diretor seguro de seu métier, com pleno domínio da técnica e linguagem cinematográficos, oferecendo uma aula de montagem de planos ao espectador que é fascinado pelo ritmo seguro imprimido à narrativa. E por falar em ritmo, esta é a palavra chave para definir o segredo da originalidade do filme. Tomando como leit motiv uma canção tradicional francesa (numa interpretação de Charles Trenet) sobre que fala “Love is Bloom”, o amor floresce, a vida explode, os ciclos da natureza e do universo seguem o fluxo do eterno retorno nietzschiano. A película sabe utilizar magistralmente os símbolos, sem hermetismos, nem lugares comuns, tudo flui com o frescor e o humor, o trágico e o cômico, realidade e fantasia se alternam, na medida certa, compondo um todo harmônico integrado a natureza e se explica que culmina na cena final quando as cinzas do personagem são espalhadas ao vento (porque tu és pó ao pó retornarás revertere ad locum tuum) realimentando o eterno ciclo da natureza. A vida é um conto narrado por um idiota, plena de som e fúria, sem nenhum significado? Ou a vida é uma paixão inútil, segundo Sartre, ou a Vida, apesar de aparentemente inútil é uma grande paixão, um Dom divino?
                O simbolismo do fogo aparece desde a sequência inicial do incêndio no berçário, o fogo na casa do vizinho, provocado pela irmã do personagem, que se revela mais determinada a atingir uma meta que o irmão inseguro, que vivia mais no plano da fantasia. O fogo como elemento destrutivo mas também regenerador e purificador, e símbolo da sexualidade exacerbada. Observa-se também a flor de plástico como símbolo da inocência perdida.
                Outro aspecto positivo no filme é a extrema sensibilidade na escolha dos intérpretes, não só adultos como crianças: o veterano francês Michel Bouquet,  as crianças têm desempenhos expressivos (observar a cena em que o personagem surpreende a irmã encontrando-se com o namorado, visto através de um trem que passa).
                Realidade e fantasia se mesclam tanto no filme como na vida real (o personagem idoso confunde os dois planos, o persona criança se identifica com o herói vingador do filme policial, Totó, que trucida seus inimigos numa visão maniqueísta da vida). O personagem adulto confunde uma jovem no estádio com a irmã morta e a esposa do rival pela qual se apaixona (pode haver maior vingança que roubar o objeto amoroso do rival, do pai substituto?) porque lembra a irmã com a qual teve na infância fantasias incestuosas, aliás o filme é pleno de sugestões psicanalíticas.
                O tema do herói e do homem comum (Toto le héros) é visto pela ótica infantil. Aqui o diretor revela um profundo conhecimento da psicologia infantil: o filme narrado pela ótica da criança em suas relações amorosas ou conflituosas com o mundo adulto e com as outras crianças é primoroso e correto na análise e compreensão do universo infantil. Creio que o diretor foi bem assessorado no estudo da psicologia infantil: a criança passa por várias etapas no seu desenvolvimento psicosexual, desde as primeiras sensações através das emoções primárias se comunica com o mundo adulto, as rivalidades entre as crianças que são vistas não como seres puros inocentes (podendo ser perversas como mostra a cena em que o grupo incita o deficiente mongolóide ao suicídio); os jogos sexuais dos irmãos (brincar de papai e mamãe).
                Outro traço a ressaltar é o humor que tempera a amargura do personagem principal exemplificado pela piada do irmão deficiente quando pergunta as horas, aliás, a construção desse tipo psicológico é de rara sutileza, rompendo o estereótipo do retardado que outras películas apresentam, ao mostrá-lo como ser sensível à natureza, capaz de perceber uma toupeira caminhando sob a terra. Em síntese, filme singular, sensível, profundo na compreensão da natureza humana e na análise da busca de um sentido para a vida. Recomendado a todos que se interessam por um cinema adulto. 
Por Maiolino de Castro Miranda

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Imprensa: Casa das Onze Janelas completa álbum de postais

Matéria publicada no Diário do Pará, em 31 de janeiro de 2012.