Crônica do Filme AQUI (Robert Zemeckis) 2024

AQUI (Robert Zemeckis) 2024


 Cybelle Salvador Miranda

Professora Titular 

FAU/PPGAU/UFPA


5 motivos para assistir "Aqui", novo filme do diretor Robert Zemeckis

Usar o cinema como veículo para tratar de questões essenciais ao ser humano é um desafio, ao qual o diretor Robert Zemeckis se lança com o auxílio da tão falada Inteligência Artificial. O título do filme já resume a instância central da trama: o ‘Aqui’, o local como enquadramento do tempo decorrido. Isso me fez lembrar imediatamente da trilogia de sucesso dos anos 80, De volta para o futuro, na qual o diretor aborda a dimensão ‘Tempo’. 

Em Aqui, a casa é a personagem principal, ou melhor, o sítio no qual ela se implanta, já no século XIX. A opção pela unidade de espaço, como o filme realizado magistralmente pelo cineasta Alfred Hitchcock ‘Festim Diabólico’, poderia conduzir a ação a um ritmo cansativo e monótono, contudo, o diretor optou por intercalar os tempos numa sequência aleatória, cujas cenas são mostradas a partir de janelas criadas na imagem projetada. Nada mais familiar para a era da comunicação digital! Estes portais para o passado oscilam entre a Era Mesozoica e o Antropoceno, registrando as mudanças no ambiente trazidas pela ocupação humana e sua sedentarização. 

As camadas históricas são ricamente detalhadas e nos envolvem em atmosferas guiadas pelos objetos, os quais nos conduzem numa trama em que estes funcionam como objetos testemunho. Dois deles se destacam: o aparelho telefônico e o sofá, este um móvel central na trama, já que é o ponto de apoio para a família, passa por remodelações de uma versão romântica dos anos 50 para o típico modulado em couro dos anos 70 (material ao qual Rose se refere como desconfortável e que não é de origem natural) e, depois, para o sofá cama que acolhe o pai de Richard, Al, no final da vida. A direção de arte é excepcional, de autoria de Emma Goodwin (responsável por Assassinato no Expresso Oriente) e os cenários de Anna Lynch-Robinson são essenciais para a criação do clima nostálgico e acolhedor (criadora dos ambientes de Alice através do espelho). 

A janela tipo bay-window, característica da arquitetura vitoriana, abre-se para o exterior e é o único ponto de observação dos moradores da casa ao longo dos séculos. A relação entre os tempos faz emergir temas como o do vestígio arqueológico, quando um grupo de arqueólogos visitam a casa e fazem escavações no quintal, no qual descobrem objetos de culturas americanas originárias. A mansão fronteira à casa do filme é a residência do filho de Benjamin Franklin, uma figura importante da política estadunidense nos primórdios da nação e que, com o tempo, passa a ser reconhecida como patrimônio histórico.

O filme encerra com um possível retorno do casal Richard e Margaret à casa, quando esta personagem se encontra numa condição de debilidade, e passa a enxergá-la como lar, como repositório de memórias distantes. Só neste momento a câmera se afasta e mostra a fachada da casa e a paisagem da rua e da vizinhança, cuja antiga estrada enlameada se transformou numa via asfaltada; a casa monumento é cercada por gradis e há um conjunto de moradias harmonicamente arranjadas, causando uma sensação de conforto.

A sala da casa é o lugar onde decorrem as vivências a que os seres humanos são dispostos ao longo da existência, de situações de extrema intimidade a reuniões sociais, a sala abriga o conversar, o comer, o fazer arte, as celebrações (de vida e de morte), o fazer amor e o nascimento. Neste teatro, as cenas decorrem naturalmente, como na vida, renovando tradições e esperanças, numa constante adaptação do AQUI ao AGORA.


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