Crônica do Filme Nouvelle Vague – uma experiência cinematográfica extraordinária
Por Cybelle Salvador Miranda
Professora Titular FAU/PPGAU/UFPA
Pegando emprestada a expressão cunhada por Julio Bermudez e Brendon Ro (experiência arquitetônica extraordinária), resolvi narrar o ato de ir ao cine Líbero Luxardo para assistir o novo filme do diretor Richard Linklater.
A experiência torna-se extraordinária por ser pensada, programada antecipadamente e marcada com os companheiros de cinefilia Ronaldo Carvalho e Carmosina Calliari. Num sábado logo após a virada do ano 25/26, o anúncio da estreia tão proclamada pelos cinéfilos internacionais – os quais contaram com orgulha já o terem assistido em Lisboa e alhures – causou expectativa. Sempre é auspicioso começar o ano a assistir bons filmes!
Apesar da recorrente falta de zêlo com o local, a chegada à grande praça é acolhedora e nos dirigimos à bilheteria, onde já se formara uma fila. No caminho, vinha comentando com uma moça que estacionou o carro na rua, ao lado do nosso, também frustrada na intenção de estacionar no interior do prédio do CENTUR, onde se paga pelo serviço mas, já por 4 vezes não consegui ter acesso pela ausência do garagista.
Seria este descuido um sintoma do descaso da atual administração com tão significativo espaço cultural?
Na fila, já se agregou um novo conhecido à conversa e cumprimentamos mais alguns habituées do cinema. Os bancos da praça coberta agregam uma atmosfera lúdica, sendo sentida a ausência do pipoqueiro – e dos pombos que o acompanham....
No amplo hall de espera que antecede a sala de exibição, jovens e adultos maiores conversavam animadamente. Quando encerrou a sessão prévia, logo se organizaram em fila para aguardar a autorização de entrada, ocupando todo o espaço. Neste salão revestido em labri de madeira e ocupado por sofás de napa marrom, a foto do homenageado é uma presença reconfortante. Afinal, tudo muda, mas o Líbero continua....
Nada de trailers barulhentos e Quiz sem graça: o filme inicia de imediato. A plateia fica cheia, e ouvimos as reações de riso às tiradas cômicas do personagem Jean Luc Goddard. Certamente a postura do aclamado cronista da Cahiers du Cinema não terá sido tão simpática como foi retratada no filma tributo.
A homenagem ao cinema de autor produzida por um americano traz frescor e alegria, de impressionar a escalação de elenco tão compatível com as dezenas de diretores e atrizes retratados. O formato da tela e o preto e branco incorporaram nostalgia e um olhar atento aos closes. O reflexo dos atores na lente escura dos óculos do diretor, a amizade com François Truffaut, o festival de Cannes, o patrono Roberto Rosselini.
Ao longo da narrativa, passeamos por ruas emblemáticas de Paris, pelos cafés, ouvindo citações de Sartre. Embevecidos pelo casal que interpreta Jean Seberg e Jean Paul Belmondo em sua experiência de não atuar. Nos apertamos nos interiores minúsculos dos apartamentos parisienses, ouvimos dezenas de vezes – Coupé!
Conversamos em estações de metrô, e, por fim, acompanhamos a sequência final de Acossado, com todos os figurantes espontâneos ao redor, e saímos saltitantes do cinema, cuja sala de espera já está repleta e a fila prossegue pela praça para assistir a Valor Sentimental. Seguimos desejando que o Líbero continue funcionando, trazendo atualidades e contribuindo para renovadas experiências cinematográficas extraordinárias, para todas as gerações.
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